A Cassini foi uma sonda da NASA, ESA e agência espacial italiana lançada em 1997 que orbitou Saturno de 2004 a 2017. Com o combustível de manobra acabando, a NASA decidiu em 2010 encerrar a missão jogando a sonda de propósito na atmosfera do planeta, pra não correr o risco de ela cair em Encélado ou Titã e contaminar com micróbios terrestres luas que podem abrigar vida. O mergulho aconteceu em 15 de setembro de 2017, após 22 órbitas finais entre Saturno e seus anéis. Ela transmitiu dados até o último minuto.
Missão
REGISTRO 01 — O tanque vazio
Toda sonda em órbita precisa de combustível pra corrigir a trajetória. Depois de 13 anos, a Cassini estava no fim das reservas [1]. Sem combustível, ela ficaria à deriva no sistema de Saturno, sem controle, por tempo indefinido — e uma sonda sem controle acaba, cedo ou tarde, batendo em alguma coisa.
REGISTRO 02 — O medo
O problema não era perder a sonda. Era onde ela cairia. Encélado tem um oceano de água líquida; Titã tem química orgânica complexa. Se a Cassini, um objeto montado na Terra, batesse numa dessas luas, micróbios terrestres que sobreviveram a bordo poderiam contaminar exatamente os lugares onde a ciência procura vida [3]. É o princípio da proteção planetária: não levar a vida daqui pra onde se quer descobrir a de lá. Em 2010, a NASA decidiu que a única saída segura era destruir a sonda no próprio Saturno [5].
MERGULHOS ENTRE SATURNO E OS ANÉIS
onde nenhuma nave tinha ido
REGISTRO 03 — O Grand Finale
Em vez de um fim discreto, os engenheiros desenharam uma última missão. Em 22 de abril de 2017, um sobrevoo de Titã ajustou a órbita da Cassini; em 26 de abril, ela cruzou pela primeira vez a lacuna de cerca de 2.400 km entre Saturno e o anel mais interno [1]. Fez isso 22 vezes. Mediu a gravidade, o campo magnético e a composição dos anéis de dentro pra fora, coisas impossíveis em qualquer outra fase da missão [3].
REGISTRO 04 — Os últimos 83 minutos
Em 15 de setembro de 2017, às 10h44 UTC, a Cassini começou a entrar na atmosfera de Saturno. Um minuto depois, a resistência do ar tirou a antena da direção da Terra e o sinal se perdeu [1]. Mas a luz leva 83 minutos pra vencer os 1,4 bilhão de quilômetros até aqui: o Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia, recebeu o último sinal às 11h55 UTC, quando a sonda já não existia havia mais de uma hora [2]. Até o fim, ela mandou medições diretas da atmosfera de Saturno — as mais profundas já feitas [2]. Depois se desfez e virou parte do planeta.
Cronologia
-
Lançamento de Cabo Canaveral
-
Chegada a Saturno; início de 13 anos em órbita
-
Primeiro mergulho entre o planeta e os anéis
-
Entrada na atmosfera de Saturno; último sinal recebido às 11h55 UTC
REGISTRO 05 — O que ficou
A NASA publicou naquele dia: a Cassini agora faz parte do planeta que estudou [2]. As últimas imagens haviam chegado na véspera. Os dados da atmosfera ainda estão sendo analisados quase uma década depois [4]. Poucas máquinas neste cemitério tiveram um fim escolhido, planejado e útil. A Cassini teve.
Perguntas frequentes
Por que a Cassini não foi simplesmente desligada e deixada em órbita?
Porque uma sonda sem controle em torno de Saturno acabaria colidindo com alguma lua. Encélado e Titã são candidatas a abrigar vida, e regras de proteção planetária proíbem o risco de contaminá-las com organismos terrestres [3].
A Cassini transmitiu até o fim?
Sim. Ela enviou dados quase em tempo real até o momento em que a atmosfera desalinhou a antena, cerca de um minuto após a entrada [2].
Quanto tempo a Cassini durou?
Quase 20 anos no espaço: lançada em 1997, orbitou Saturno de 2004 a 2017 [5].
O que a Cassini descobriu?
Mares de metano em Titã, um oceano sob o gelo de Encélado com gêiseres e indícios de atividade hidrotermal, além de mapas detalhados dos anéis e tempestades de Saturno [4].


